Homem ao Mar

Do resgate e o Salvamento

Nunca fora digno de algum valor. Aprendia rápido, e assim aprendeu bem de seus pais e todos que os seguiram. Jamais deram a ele qualquer valor e por vezes sem conta deram exemplos de sua inutilidade. Entendeu que era imprestável, e a vida; soube como usá-la para confirmar o que aprendera. Em cada oportunidade exerceu sua inutilidade. À moral, jamais apegou-se, e ao correto não fez esforço em agradar. Perambulou pela vida, quase sempre no torpor etílico em que se mantinha, mais pelo conforto da irresponsabilidade, natural a quem mal pode levantar-se, do que pelo gosto real pela bebida, que na verdade jamais a ele atraiu por sabor. Não enveredou-se por más companhias, pois a realidade o punha só. E só jamais viu importante razão para aprender a expressar-se ou ao menos banhar-se. Um acidente do sexo descuidado e pouco amado era como se via.

E perambulando acabou no pier, afeiçoou-se aos barcos pesqueiros, talvez pelo odor apodrecido que tocava sua alma como que por reconhecimento e semelhança, talvez pelos longos períodos no mar, onde até o vômito era saudado com certo respeito, e onde seu andar balançante e pouco firme era camuflado pelo ritmo das ondas. E talvez pela única vez em sua existência, teve resposta à sua atração, ao menos com indiferença, e os barcos o aceitaram. Todos bem vindos ali, desde que dispostos a muito trabalhar, pouco ganhar e nada reclamar. O trabalho duro era a única demanda, e para ele jamais foi um problema. Parecia até coerente, uma certa punição para ser tão débil.

Acomodou-se naquela inexistência, sem culpa em sua infelicidade de berço, dando ação à sua desprezível inutilidade, fazendo o suficiente para viver, mas nada que pudesse ao acaso contribuir com o mundo de maneira a divergir de sua certeza em ser um quase nada. Mal poderia ele imaginar que aquele garoto assustado, ainda penteado, mudaria sua vida. Soubesse ele que assim seria, teria reparado em sua chegada. Mas em desaviso sobre o que viria,  mal o notou. Era apenas mais um entre tantos  que tentaram a pescaria mas por pouco tempo suportaram o laboro.

Seguiu o dia em torpor como de costume, sem muito reparar no tempo, envolto no balanço do mar que naquele dia estava para poucos amigos. Trabalhou duro como sempre, assim foi por um dia, ou dois. Acordou cedo por preguiça de seguir dormindo e porque sentia a bexiga apertar. Xingou por precisar mover-se, e levantou entre mãos que seguravam as paredes a ir e vir. Seguiu para o deck para aliviar-se. O mar é bem mais tentador a quem não quer lidar com o esforço de acertar uma pequena latrina em meio ao balanço do oceano. Se perdesse a mira não importava-se, mas os companheiro reclamavam, e aprendeu que a indiferença seria preservada com alguns cuidados e normas.

Chegou ao convés sem dar atenção ao vento fresco que batia, nem à gaivota que voava acompanhando o barco, permanecendo como que parada sobre sua cabeça. Encostou-se no beiral já começando a esvaziar-se, ignorou o comentário feliz do jovem rapaz que há poucos dias chegara na tripulação e ali aproveitava o vento. Não. Ele não escutou e nenhum esforço fez para entender, mas foi o suficiente para obrigá-lo a ignorar o jovem. Melhor seria se nem estivesse lá, assim ignorá-lo seria desnecessário, mas ele ali estava. E como num pedaço mínimo de um instante o rapaz sumiu, jogado ao mar provavelmente por uma balanço mais ríspido que o velho marujo nem chegou a notar em seu estado entorpecido inerte. Reagiu por impulso fazendo nada. Foi fingir não ter visto a sugestão de seu impulso. Mas não tinha vocação a lidar com confusão e julgava mais fácil fazer o que deve ser feito no limite da mediocridade. E como assim dita a regra do mar, teria de fazer algo para manter seu emprego. Devia anunciar o homem ao mar e ajudar no resgate. Percebeu isto com desgosto. Com a mão lenta e sem vontade soou o alarme. Pegou a bóia presa ao cabo e desatento jogou ao mar. O fez tão sem cuidado que acabou por acertar o rapaz. O jovem agarrou-se à circunferência laranja e começou a gritar. Ele sentiu uma puxada. Sobressaltou-se. Teria de puxar ou seria puxado pelo rapaz em desespero, e assim começo a recolher o cabo. Cada braçada que dava jogava sobre o convés mais um metro de cabo. Seguiu puxando sem pensar. Puxou, puxou e distraiu-se puxando. Seu corpo pareceu gostar do ritmo simples daquilo e foi ganhando velocidade. A cada puxada seus músculos pareciam mais acordados. Já podia ver a cara do rapaz e assustou-se por ver-se olhando seus olhos. Estava mesmo olhando para o rapaz e em algum lugar sentia certa alegria em vê-lo aproximando-se do barco. Reconheceu aquele sentimento de empolgação, de alegria. Já o havia sentido algum dia. Na infância talvez, não se lembrava. Seguiu em seu ritmo, puxando o cabo energicamente, conectado pela corda ao fruto de seu trabalho: aquele marinheiro que seria trazido em vida ao barco. Cada puxada de cabo parecia trazê-lo mais pra cima. Fixou suas pernas ao chão com energia. Teve de acordá-las de anos de letargia, mas elas pereceram acordar aliviadas e cheias de energia. Cada braçada puxou algo novo, ou velho, do fundo. Sentiu alegria ao ver o rapaz sorrir, ainda em meio às águas que o sacudiam. Viu o garoto começar a chorar de alegria ao ver-se quase salvo. Chorou também, enquanto seguia puxando. Não se lembrava de ter lágrimas antes. Puxou mais uma e sentiu dor nos braços. Mais uma e teve vontade de seguir puxando, vencer a dor, esforçar-se pelo resultado. Divertiu-se com o sentimento, seguiu puxando em ritmo constante. Percebeu de repente que gritava a cada puxada, e seus companheiros o acompanhavam, segurando o resto da corda e puxando juntos a seu comando! Quando chegaram lá? Todos começavam a gritar de alegria: o garoto estava quase no barco e ele também estava feliz! Muito feliz, como não sabia poder estar. Foi o primeiro a esticar o braço e segurar a mão que o segurou de volta. Puxou o garoto para si com uma força que desconhecia e o abraçou. Não sabia bem onde aprendera a abraçar. Talvez em algum filme que assistira sozinho num cinema velho do centro. Abraçou sem precisar recorrer às lembranças do filme. Abraçou como se sempre o fizesse, por vontade própria e sentiu o garoto ensopado soluçando de alegria. Sentiu o gosto do sal na boca, mas o sal suave. Não como o do mar. Viu-se em lágrimas, rindo, pulando em um grande abraço em meio a seus companheiros de tripulação. Lembrou-se da última vez que pulara só por querer. Era uma criança, pensou.

Foi levado ao ar, nos ombros alegres de seus colegas, saudado como um herói. Sua cabeça latejava, mas em uma sensação viva e acordada. Chorava e ria! Os braços erguidos ao ar balançavam. Erguera o braço sem necessidade, só pelo prazer de fazê-lo! Nem sabia ser isto possível. O apito do barco soou em pura comemoração, uma, duas, três vezes! Ele olhou para baixo. Segurando suas pernas para mantê-lo no ar, o garoto encharcado o agradecia aos berros, chorando em alegria e gratidão. Ele olhou para aquele jovem e encontrou em si um silêncio profundo. O som foi para longe. Não teve uma vida para passar à frente dos olhos pois nada encontrou em sua memória ainda cheia de portas cerradas. Mas seguiu olhando aquele garoto como se houvera parado o tempo, e emocionou-se em silêncio na mais profunda gratidão que jamais sentira, reconhecendo naquele pequeno rapaz, aquele que o resgatara da mais obscura profundidade. Olhou para o céu, viu a gaivota que lá seguia, uma pouco mais alto, incomodada com a bagunça. Olhou para frente, viu o mar a subir na proa. Percebeu que o barco ia avante.

Naquela noite bebeu como nas outras. Sentiu o gosto do álcool como jamais sentira. Surpreendeu-se ao lhe queimar a garganta. Tomou um banho e barbeou-se. Chorou toda a alegria que jamais sentira, e jurou sentir. Sentir a vida enquanto ela estivesse. E assim são sempre os resgates: difícil saber quem resgata e quem é resgatado. Quase sempre se presta a ambos.

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