O Gigante Preto Que Faz Assim

A Educação dos Filhos e Seus Assombros

Eu não gosto do Gigante Preto que Faz Assim. Não gosto porque ele faz meu filho chorar, e isso faz doer em mim. Por alguns dias agora, o final da tarde está assombrado. Ela traz a chegada deste tal Gigante, aparentemente malvado.

Meu filho tem três anos. Esta idade já bem moleque, mas com um bebê lá no fundinho. E quando a noite vem chegando, esse toquinho de gente, que eu ainda queria proteger de todo e qualquer sofrer, se apavora de medo pela chegada desta figura que eu nunca vi, mas que, segundo ele, chega com a noite inexoravelmente. E o que fazer? Eu me pergunto.

Abraço, acolho, digo que estou por perto. E sofro por ver que isto traz sim muito acalento, mas não acaba com o sofrimento. As lágrimas continuam e o terror é evidente. Ele quer entrar em casa, fechar todas as portas que vão ao jardim. Pergunta se tranquei cada uma delas, digo que sim.. E o que fazer? Eu me pergunto.

Educar os filhos é a rotina de perguntar-se, ou deveria ser. Pois se temos alguma certeza, provavelmente ela está cegando alguma clareza.

Não sei de onde surgiu este tal Gigante, e por mais que eu pergunte, me diz que não escutou dele na escola, nem de algum amigo. Não o viu num livro, numa história, diário ou noticiário. Pergunto como sabe dele, e a resposta é precisa e sofrida.  "Ele vem, papai. Eu sei sozinho.” Sabe de onde, meu amor, eu lhe me pergunto. Mas resposta clara a isto, também não escuto. "Ele vem, papai. Eu sei sozinho.”

E aí surge este lugar, onde mesmo querendo, eu não consigo chegar. Este lugar "sozinho”, onde sabe sozinho do tal Gigante, que por um ou outro caminho indecifrável, virou um ser aterrorizante. E o que fazer? Eu me pergunto.

É neste o que fazer, que não sei bem responder, que vou tentando acolher sem desespero. Acolher meu próprio medo de não saber como eliminar da vida deste pequeno, qualquer gota de dor, sofrimento ou veneno. Ainda bem que não sei, pois se soubesse, talvez por fraqueza o fizesse. E ai sim, por puro excesso, poderia dar a ele ainda pior caminho. O que teria a ensinar, sem o lobo, a Chapeuzinho? O mundo é o que é, e eliminar o que nos parece feio não o faz mais belo. Apenas mais pobre.

Ora, quem sou eu pra afirmar que tal Gigante não existe? Existe pra ele, e se eu negar sua existência, o que posso fazer com o medo que já está lá, e nasceu justo da sua presença? Poderia ele me dizer às minhas angústias: Papai, não fique tenso. Dificuldades financeiras não existem. Certamente pouco me ajudaria a me acalmar, e é, pra ele, verdadeira esta afirmação, já que ele nunca viu esta tal criatura. Exatamente como eu nunca pude ver o tal Gigante. Não posso negar que o que ele me diz é verdade, ou não poderei chegar neste lugar aonde posso acolher a sua realidade, e pouco a pouco, sem pressa, ainda que com angústia e até ansiedade, vou dissolvendo este medo lentamente, apenas em abraços, beijos e portas trancadas. Mostrando, no tempo, que tal Gigante, ou foi-se ou com a gente não se importa, já que apesar de ter estado por lá, nunca veio forçar a nossa porta.

Vou mostrando que por aqui é seguro, e torcendo pra este medo o fortalecer e não enrijecer. Torcendo pra, ao reconhecer o Gigante e sua aterrorizante existência, incentivá-lo a seguir me contando sobre as fadas e monstros que encontra em cada experiência. O mundo de cada criança é vasto e sempre a se ampliar, e se vou eu, a cada coisa que não me agrada, desconsiderar ou desvalorizar, vou destruindo sem perceber o mundo que ele está criando. E cuidado com isso, pois enquanto ele cria este mundo cheio de luz e mágica, que tem também monstros e gigantes, é também neste mundo que ele vai se criando. Se desacreditamos demais o que há no seu mundo, ou vai se  empobrecer o mundo que ele habita, ou se cala a comunicação que com ele vamos construindo. E eu, por mais que não goste dele agora, é bem com esse Gigante que vou me relacionando.

Fico eu aqui navegando por tantas perguntas, que lindamente sempre escondem as suas respostas. E por esta riqueza de explorar, e deixar nascer do amor um jeito de educar, agradeço meu filho, e até a esse Gigante que gostaria de eliminar.

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