O Motorista, O Skatista e Nós Mesmos

O motorista que atropelou os skatistas não tinha, não tem e jamais terá justificativa para fazê-lo. Mas teve motivos. Nos viciamos a olhar pra fora, e vamos ocupando nosso mundo interno com silêncios, raivas e medos que não aprendemos a elaborar e digerir. Não aprendemos pois um mundo mecanicista jamais nos ensinou a fazê-lo e, ainda hoje, trata com preconceito a ação de desenvolver o próprio ser. O trabalho é para fora. Raramente valorizado quando voltado a dentro. O resultado? Nos faltam espaços internos, pois estes, estão ocupados por uma infinidade de coisas com as quais não sabemos lidar. Vamos acumulando sem tempo ou recursos para que isto seja elaborado e transformado num novo ciclo. No mundo de hoje, em nossa cultura, nosso mundo interno não é um caminho de crescimento, mas sim, de acumulo, silêncio e imobilidade. A explosão e o transbordar são apenas as consequências. E, mais uma vez, como nosso mundo vê apenas o que está para fora, é apenas isto que se vê. Segue-se apontando consequências e as travestindo de causa. A pressão interna insuportável explode em ataques do coração, doenças, depressões ou rompantes de violência, que são apenas as consequências naturais da absoluta falta de espaços internos, sem os quais ir para fora torna-se o único caminho possível. E como tudo que transborda, o faz sem aviso, de forma desastrada e destrutiva. Enquanto não pudermos, como sociedade, como cultura, dar espaço verdadeiro e honroso ao silêncio e ao trabalho que precisa ser feito com aquilo que vai se acumulando dentro de nós, sofreremos as consequências deste acumulo que por vezes explode. Assim como o lixo que geramos no mundo precisa, para ser reciclado, de recursos importantes, como tempo, dinheiro e investimento, também precisam destes recursos os resíduos internos que se acumulam em nós pela vida. Ou assumimos isto de forma central, ou seguiremos responsáveis por explosões constantes ao nosso redor ou em nós mesmos, e nos iludindo, a cada uma delas, de que somos vítimas apenas. Apontar o outro por sua explosão é, novamente, olhar para fora apenas. É inegável que este motorista tem responsabilidade inquestionável por seu ato absurdo. Mas há, neste fato, lições para todos nós.

Esta realidade imobilizadora, mantém indisponível e presa uma quantidade imensa de energia e potência, que ao invés de nos impulsionar, nos pesa. Esta realidade está nas pessoas, está nas famílias e está, inegavelmente, na grande maioria das organizações, que seguem se questionando de que precisam para seguirem fortes. Num mundo de abundância, onde os maiores problemas do planeta ocorrem por excesso e não por falta, há que se perguntar: porque o excesso gera tanta escassez? E estou convicto que boa parte desta resposta, reside no acumulo interno que nos pressiona. É preciso lidar com isto.

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