A Estrada que Atropelou a Vila

MÃOS NA MASSA, OLHOS AO REDOR


Há alguns anos percorri o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Semanas caminhando dia após dia, num mantra físico inexplicável.

Certo dia cruzava uma pequena vila, no meio da Galícia. Já escrevi sobre esta passagem no artigo O Mundo Sob Seus Pés. Mas estive pensando em novo aspecto.

Esta vila era pacata e tinha pouco mais de dez casas. Vi apenas pessoas de idade em minha breve passagem. Nenhum carro passou por ali. Ninguém chegou, ninguém saiu. Dezenas de metros acima, passando ao alto, ignorando a existência do vilarejo, um enorme viaduto carregava uma grande Estrada. A nova Estrada veio, passou por cima e colocou este lugarejo às margens, sem se dar ao trabalho ao menos de esmagá-lo. Literalmente o tirou do mapa.

Os moradores cuidavam atentos de suas criações. Bovinos, ovinos, cerejas e outras frutas. Tortas e doces deliciosos. Mas independente do carinho que dedicaram a cuidar de sua vila, a Estrada chegou e passou por eles deixando-os no vazio. Sem clientes, sem compradores, sem turistas ou visitantes. Restou a tarefa diária da sobrevivência.

Tenho visto este dilema em inúmeras organizações. Cuidar dos afazeres diários, pressionados por metas e parâmetros de qualidade, ou manter um olhar ao redor, percebendo mudanças futuras no cenário. Mudanças que poderão destruí-las e condená-las a uma eventual sobrevivência, apenas.

Perceber as mudanças que chegam de fora de nosso foco de olhar diário é fundamental. Percebê-las em tempo de reagir – pois às vezes as mudanças demandam reações complexas que consomem tempo e planejamento – é tão essencial quanto. Mas isto exige estrutura e recursos alem da produção e da venda. Deve constar do plano de trabalho de qualquer organização. Quando a obsessão por custos e resultados impede que se aloque recursos em olhar ao redor e pensar à frente ela pode significar um final doloroso, que lhe parecerá repentino. Mas nada há de repentino nisso. Sua percepção é que foi tardia. Dedique tempo para olhar ao redor, com vontade de ver e coragem de enxergar.

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